Antes de aprender a ler o céu, é preciso aprender a olhar para ele. E, antes disso, é também preciso descobrir que existem muitas maneiras de ler o mundo.
Uma história pode nos ensinar a perceber o que sentimos. Um personagem pode nos ajudar a compreender alguém diferente de nós. Uma imagem pode despertar uma pergunta. Uma sombra pode virar uma investigação. Um planeta pode nos fazer pensar sobre pertencimento. Uma estrela pode nos levar a imaginar o que existe além do que conseguimos ver.
É nesse encontro entre diferentes formas de leitura que a biblioteca do Selo do Céu começa a fazer sentido. Por aqui, os livros não foram escolhidos apenas porque falam de astronomia; na verdade, alguns deles nem falam. E isso é justamente uma das coisas mais bonitas da nossa biblioteca.
O projeto nasceu com a ideia de utilizar a Astronomia como ponto de partida para despertar a curiosidade científica e, ao mesmo tempo, cultivar empatia, cooperação, respeito às diferenças e cultura de paz.
Para isso, precisávamos de histórias capazes de acompanhar as crianças por diferentes caminhos.
“Somos Todos Extraordinários”, de R. J. Palacio, por exemplo, nos convida a começar pelo lugar mais próximo de todos nós: nós mesmos.
A leitura abre espaço para conversar sobre inclusão, gentileza, amizade e pertencimento. E, enquanto escutamos a história, começamos a perceber que cada pessoa tem características, sentimentos e maneiras de estar no mundo que merecem ser reconhecidos e respeitados.
Antes de olhar para as estrelas, começamos olhando uns para os outros. Depois, uma semente nos ensina outra coisa!
Em “A Semente da Verdade”, de Patrícia Engel Secco, uma história aparentemente simples ganha espaço para perguntas sobre honestidade, coragem, escolhas e responsabilidade.
As crianças começam a perceber que nem tudo aquilo que importa pode ser visto imediatamente; algumas coisas crescem dentro da gente.
E aprender também pode ser uma forma de cultivar aquilo que queremos levar conosco pela vida.
Com “O Pequeno Planeta Perdido”, de Ziraldo, o Universo já aparece mais diretamente, mas a pergunta continua sendo humana.
O que fazemos quando alguém precisa de ajuda?
Como percebemos a solidão do outro?
O que significa pertencer a algum lugar?
Em uma história passada entre pequenos mundos, surge uma descoberta muito maior: em um Universo tão imenso, ninguém deveria ser deixado sozinho.
É interessante perceber o que acontece quando essas leituras se encontram. Uma fala da criança, uma lembrança, uma pergunta sobre o personagem, uma comparação com aquilo que acontece na própria sala de aula.
A literatura vai criando vocabulário para sentimentos e situações que, muitas vezes, ainda são difíceis de nomear. E, quando esse caminho já está sendo construído, podemos finalmente levantar os olhos.
É aí que chegam livros como “Estrelas e Planetas”, de Pierre Winters, “Meu Primeiro Livro de Astronomia”, de Pedro Mohallem, e “Lanterna – Procure e Encontre! Espaço”, de Susie Rae.
Agora aparecem o Sol, a Lua, os planetas, as estrelas e tantos outros elementos do Universo.
Mas continua existindo algo que estava presente desde o começo: as perguntas!
O que é isso?
Como sabemos?
Por que acontece?
Onde fica?
O que aconteceria se...?
A criança começa a perceber que aprender sobre o Universo não significa apenas receber informações. Significa observar, comparar, procurar, conversar, formular hipóteses e voltar àquilo que já se pensava para descobrir que uma nova compreensão pode nascer dali.
É nesse momento que o letramento literário começa a conversar com o letramento científico: uma história desperta uma pergunta, que pede uma observação, que leva a uma descoberta. E a descoberta pode voltar para a linguagem, para o desenho, para a escrita e para uma nova história.
Foi justamente essa aproximação que ganhou forma na sequência “Do letramento literário ao letramento científico: como as crianças entendem o Universo?”, desenvolvida pelas bolsistas do PIBID com os pequenos do 1º ano.
A leitura não ficou separada da investigação. As crianças leram, conversaram, observaram imagens, fizeram perguntas, conheceram representações do Universo e, ao final, participaram da construção da enciclopédia “O Universo aos olhos das crianças: o que pensamos e descobrimos”.
Aquilo que começou em páginas de livros passou para as próprias palavras das cricriança.
É, seguramente, uma das partes mais bonitas do letramento: quando aquilo que lemos deixa de estar apenas no livro e começa a fazer parte daquilo que somos capazes de pensar, explicar e criar.
Mas a nossa biblioteca também guarda espaço para outra forma de leitura: aquela que acontece com as mãos, com os olhos e com a experiência.
Em “Brincadeira de Sombra”, de Ana Maria Machado, a luz deixa de ser apenas uma coisa que ilumina e passa a provocar perguntas.
A sombra aparece, muda de lugar, ganha novas formas. Uma brincadeira pode virar observação, a observação pode virar investigação e a investigação pode transformar uma experiência cotidiana em conhecimento científico.
Da mesma maneira, “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, abre um espaço diferente.
Aqui, a leitura encontra a imaginação!
Um pequeno planeta, uma rosa, uma raposa e muitos encontros dão às crianças a oportunidade de criar, inventar e pensar sobre os lugares que habitamos.
Como poderíamos ajudar aquele pequeno planeta a se tornar um lugar ainda melhor?
A pergunta parece pertencer à história. Mas não demora muito para perceber que ela também pertence à nossa própria vida.
Talvez seja esse um dos encontros mais interessantes da nossa biblioteca: aprender sobre outros mundos pode nos ajudar a pensar melhor sobre o nosso.
E, quando chegamos a “Você e o Universo”, de Lucy e Stephen Hawking, o caminho parece se completar.
Voltamos ao céu! Mas não voltamos do mesmo jeito.
Depois de tantas histórias, conversas, brincadeiras, investigações e descobertas, a criança já não olha apenas para um conjunto de estrelas.
Ela olha com perguntas.
Reconhece elementos.
Relaciona informações.
Imagina possibilidades.
E percebe que cada resposta pode abrir espaço para outra pergunta.
Por isso, esse livro fecha um ciclo sem realmente encerrá-lo. Simplesmente porque a curiosidade não termina!
A nossa biblioteca chegou assim a nove obras, reunidas ao longo das experiências do Selo do Céu. Algumas estavam presentes desde o planejamento inicial do projeto. Outras chegaram depois, trazidas por novas experiências e, especialmente, pela participação das bolsistas do PIBID.
Mas, mais do que uma coleção de nove títulos, o que se formou foi uma pequena constelação de possibilidades.
Livros para falar de nós e falar do outro.
Livros para descobrir o céu e observar a luz.
Livros para imaginar outros mundos.
Livros para procurar, encontrar e perguntar.
No fundo, livros para aprender a ler de muitas maneiras.
Porque a alfabetização e os diferentes letramentos não precisam acontecer separados da curiosidade científica. Uma criança pode aprender uma palavra enquanto descobre um planeta.
Pode interpretar uma história enquanto pensa sobre convivência e desenhar uma ideia enquanto tenta explicar um fenômeno. Pode conversar sobre um personagem e, ao mesmo tempo, aprender a escutar outra pessoa e observar o céu e começar a perceber que aquilo que parece distante também diz respeito à vida que existe aqui.
É por isso que, no Selo do Céu, a literatura ocupa um lugar tão especial! Os livros são portas, mas não são portas todas iguais.
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